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Noites Iguais


Clara sentou-se em seu sofá branco de couro, apoiou o cartaz escrito “Abaixo o Reuni” ao lado, respirou fundo, suspirou lentamente enquanto fechava os olhos. Ela havia acabado de voltar de uma tomada de reitoria no Fundão, estava exausta, seu conhecimento sobre a questão era pouco, mas o bastante para ter certeza que era contraria a tudo aquilo.

O corpo jogado no sofá foi escorregando e se apoiando em uma posição quase horizontal com as pernas jogadas sob o chão. O sol entrava pela cortina no canto do apartamento e o som dos carros passando pela Vieira Souto entrava apartamento adentro.

Maria, uma velha senhora gorda, negra e com um olhar extremamente maternal entrou no ambiente enquanto enxugava um copo. Enquanto movia sua cabeça para verificar se Clara dormia ela falou:

- Oh Clara… Ta acordada?

E clara levemente abriu seus olhos, dos seus lábios saiu um breve sorriso.

- Maria…

E Maria deu um grande sorriso enquanto ajeitava sua postura. Ela foi para mais perto de Clara e dessa vez falou em um tom mais claro:

- Mulher, sua mãe ta te procurando. Você tava onde?

- Agente ocupou a reitoria Maria – falou Clara se ajeitando no sofá.

- Explica isso para ela depois. Você vai querer comer alguma coisa?

- Tem ainda aquela quiche de palmito?

- Tem não, mas eu faço.

- Não precisa o incomodo Maria. Fica tranqüila. O que têm?

- Olha, tem um frango que sua mãe pediu e ela falou para você comer.

Clara olhou para o lado e deu uma rápida esbaforida.

- Mas eu comi o frango. Posso fazer uma berinjela a milanesa como você gosta e ai você come com arroz e legumes.

Clara abriu um sorriso, se levantou e abraçou Maria, que abraçou de volta e falou mais baixo:

- Ó minha filha, tenta não brigar tanto com sua mãe, ela quer seu bem, mas não te entende. Agente vai fazendo assim e finge para ela que ta tudo certo.

Clara abraçou Maria um pouco mais forte e falou:

- Maria eu te amo – e deu em seguida um beijo na bochecha de Maria e a largou.

- Aquela menina te ligou também filha – falou Maria voltando a enxugar o copo, que já estava bastante seco.

- Aquela menina é Amanda? Que por acaso é minha namorada?

- É a Amanda sim.

- Vou para o quarto falar com ela Maria. Quando tiver pronto me avisa.

Clara então entrou por um corredor que passava por diversas portas até que bem para o final ela entrou em uma a esquerda que dava em seu quarto. Ele deveria ter uns vinte metros quadrados, tinha uma cama de solteiro, um sofá, um birô com seu Mac, uma poltrona egg vermelha, uma estante com alguns livros e vários bichinhos de pelúcia.

Clara pegou o telefone e discou. Após um tempo Amanda atendeu do outro lado e Clara falou:

- E ai mulher… É, eu tava na ocupação, eu te falei poxa… Sei… Entendo… Olha nem quero ir pra Fosfo hoje não… Tá certo. Agente vai sexta, hoje eu vou dormir com você e agente fica só no boteco 3.

Clara passou o resto do dia entre ler seu livro de artigos de jornais de Truffaut e assistir Two and a Half Mam que ela baixou da internet em seu monitor de 26 polegadas da Apple. Parou somente para comer o seu jantar atrasado, se arrumou e foi para um bar onde estavam os amigos.

No bar em botafogo estavam sentados: Guilherme, um rapaz magrela de cabelos negros, lisos e longos, com barba por fazer e uma camisa do Sonata Artica; Gabriela, uma garota que estava envolvida pelos braços de Guilherme, vestia uma bota de cano alto, um vestidinho curto, um casaco jeans que combinava com seu curto cabelo azul; Johanna, uma mulher gorda, loira, com muita maquiagem, espartilho, shortinho e uma meia arrastão; e Amanda, uma baixinha de cabelos curtos castanhos, barrigudinha, com uma camisa do Pixies, uma calça jeans e all-star.

Clara sentou ao lado de Amanda, as duas se beijaram. Durante a madrugada a mesa fumou dois maços de cigarros e bebeu vinte e dois cascos de cerveja. Cambaleando, enquanto o sol nascia, as duas pegaram um taxi e foram para a casa de Amanda no Catete.

Amanda morava em um quarto e sala equipado com uma televisão, um colchão no chão, livros, uma geladeira com muita cerveja e um banheiro. As duas ficaram nuas e transaram loucamente naquela noite.

Clara abriu os olhos doloridos, pegou seu celular com quatorze ligações não atendidas de sua mãe e uma mensagem escrita “Você não precisa voltar para casa. Está me saindo uma bela de uma vagabunda.” Ela não se importou. Ela se levantou enquanto Amanda saia do banho. Clara começou a se vestir quando Amanda ainda nua falou:

- Você ta diferente. Não quis ir para fosfo ontem, não quis puxar um com agente mais cedo.

- To cansada.

- Ta cansada do que?

- To cansada porra.

- Você tem mó vida boa, para de merda.

- Caralho. Eu to cansada!

Clara já estava ficando alterada e foi até a janela acender um cigarro. Amanda, agora vestindo somente sua calcinha foi atrás de Clara e a abraçou pela cintura. Clara tirou a mão de Amanda da cintura e virou o rosto falando:

- Vai se fuder.

Amanda voltou a se vestir. Clara suspirou, apagou o cigarro, se virou enquanto se apoiava na janela e falou:

- Eu quero acabar. Não ta funcionando.

Lágrimas começaram a escorrer no rosto de Amanda que se sentou na cama. Clara calmamente juntou as coisas dela e andou até a porta. Enquanto ela abria a porta Amanda atirou uma bolsa nas costas dela. Clara pegou a bolsa e colocou ao lado da porta, olhou um pouco Amanda chorar, abriu a porta, deixou a cópia da chave dela em cima da bolsa, falou “Tchau” e fechou a porta.

Nos quatro dias subseqüentes Amanda deixou de ir à faculdade. Ela trancou as três matérias que fazia junto com Clara. As pessoas por um tempo começaram a falar um pouco torto com Clara.

Os dias se arrastavam. Clara ia para a faculdade e da faculdade para casa onde ficava trancada em seu quarto lendo e assistindo a filmes. Sua mãe, como sempre, mal a via, somente no fim da noite quando chegava de suas longas jornadas de trabalho. Nessas poucas noites a mãe de Clara a convenceu a freqüentar um psiquiatra e a ir dormir mais cedo.

Na faculdade ela se manteve falando mais com Guilherme e Gabriela, que agora estavam namorando. Eles a chamaram para uma festa, ela hesitou no começo, mas acabou topando.

Chegou em casa, tomou seus remédios e por isso não poderia beber. Sentou, leu um pouco de Goethe e tirou um cochilo, foi acordada por Gabriela ligando. Clara atendeu ao telefone e somente concordou com monossílabos.

Arrumou-se e saiu enquanto sua mãe chegava. Ela a olhou torto, mas como era sexta feira não reclamou. Clara pegou um taxi e se encontrou com os dois na porta do Espaço Acústica. Era a formatura do curso de Design da PUC-RIO e os dois estavam falando com mais uma garota, a Júlia, uma loira baixinha que estava se formando em Design. Apresentaram as duas e enquanto os três conversavam animadamente, Clara ficou calada.

Entraram na festa, Clara dançou um pouco, mas logo subiu para sentar nos sofás. As horas passaram lentamente, ela queria ir embora. Clara olhava para o chão sem sentir um mínimo de animação pela vida. Ela percebeu Júlia vindo, junto com um homem, na direção dela e logo se irritou. Gabriel, um garoto magro, alto, vestindo uma calça xadrez folgada, uma bata e all-star chegou ao lado de Júlia.

Ele olhava para os cantos enquanto Júlia apresentava os dois. Ele sentou ao lado esquerdo de Clara e Júlia no direito. Ele perguntou para Clara:

- Então você é a Clara.

Ela olhou meio de lado para ele e ele abriu um grande sorriso. Clara sorriu de volta sem vontade e respondeu:

- Isso.

- Gabriel, é um prazer.

- Prazer.

Ele ficou ao lado dela sorrindo e conversando sobre relacionamentos, no meio da conversa Júlia saiu. Clara falava muito pouco, fazendo com que Gabriel falasse muito mais. Quando ele se aproximou dela e colocou sua mão em seu ombro ela tirou. Ele sorriu, se levantou, perguntou se ela não gostaria de dançar e ela respondeu que não. Clara terminou indo embora logo depois disso e Gabriel continuou na festa.

Clara foi para casa, dormiu, acordou cedo no sábado de manhã e resolveu ir caminhar no calçadão. Ela se cansou logo, se irritou com o sol, foi para uma barraca e comprou uma coca-cola. De repente alguém a cutucou nas costas, ela olhou para trás e era Gabriel segurando uma maquina fotográfica enorme com uma grande lente e um grande sorriso no rosto.

- Caminhando de manhã na praia?

- É…

- Sempre bom não é?

- Não.

- Hum… Eu gosto.

Clara, incomodada, se sentou na cadeira e Gabriel foi até a barraca comprar uma água de coco e sentou-se ao lado dela. Ela percebeu na mão dele um terço oriental de madeira e ficou olhando. Gabriel falou:

- É para proteção. Devia ter usado ontem, mas não achei por nada.

- Sei.

- Você saiu cedo ontem não foi?

- Humhum. Não estava gostando da festa.

- Pois é… Eu não tenho mais paciência para essas festas também.

- É… Eu também não estava podendo beber.

- Eu não bebo também. Você tá tomando remédio?

- Calmante e anti-depressivo.

O sorriso de Gabriel diminuiu um pouco. Ele deu um longo gole na água de coco. Clara falou:

- Você não gosta né?

- Não… Nada contra para quem precisa. É só que às vezes acho que prescrevem esses remédios facilmente demais.

- Entendo.

- O que você vai fazer hoje de noite?

- Nada… Não sei.

- Que tal pegar um cinema?

- A é? Não sei.

- Ah. Vamos!

- Ta… Vou ver…

- Me dá seu celular.

- Tá.

Clara passou o número do celular para Gabriel. Voltou para casa logo depois, entrou no facebook e adicionou-o. Viu que ele era budista, meditava, usava roupas estranhas e estudava filosofia na UFRJ. Deitou-se e foi dormir.

Algumas gotas de chuva batiam na janela. Clara abriu os olhos e sentiu um calafrio em seu corpo. Ela foi até o armário, pegou uma camisa de manga longa e vestiu. Saiu e foi até a sala onde viu sua mãe sentada tomando uma grande caneca e café.

Clara gritou:

- Maria! Faz um ovo mexido para mim.

Entretanto, em resposta veio somente a voz da sua mãe:

- Maria não está – ríspida como sempre.

- Ela tá doente?

- Não sei.

- Ela não tá por quê?

- Ela foi demitida.

Clara parou, a mulher que cuidou dela desde que ela nasceu, a ouvia reclamar, chorar, entendeu suas escolhas, aceitou ela ser lésbica, aprendeu pratos vegetarianos quando ela cortou carne… Tinha sido demitida.

Clara andou um pouco, tinha alguma vontade de chorar. Respirou fundo e falou com calma:

- Por quê? O que houve?

- Ela estava roubando e não limpava em cima das estantes.

- Roubando?

Clara não acreditava que Maria estava roubando, ela sempre foi uma mulher muito honesta. Sua mãe continuou:

- Sim. Ela ficava com o troco das compras e pegava parte dos produtos para ela.

Clara ficou em silencio. Foi até a cozinha, pegou uma capsula de café e preparou um expresso muito forte. Pegou sua xícara e foi para o quarto, sentou, respirou. Clara bebeu o café sem sentir nada no peito. Seu corpo, agora, era frígido.

O dia passou, ela resolveu não ir para a faculdade. Ficou em casa, trancada. No computador brotou uma mensagem de Gabriel convidando-a para ver um filme e tomar um café. Ela perguntou se poderia ser “hoje de noite” e ele disse que sim. Combinaram então de se encontrar mais tarde.

Deu à hora, ela se vestiu e foi ao encontro de Gabriel. Ela não estava com humor para heterossexuais chegando nela, mas resolveu respirar fundo. Ao chegar viu Gabriel sentado em uma mesa, bebendo um expresso e lendo Belvedere. Aproximou-se, deu um tapinha no ombro dele, ele se levantou e a cumprimentou com dois beijos.

Clara pediu para ver o livro, ele entrou. Era do Chacal, livro de poesias. Ela fechou logo, estava enjoada de poesias. Estava enjoada da vida na verdade, não queria estar ali, só queria voltar para casa.

Gabriel não parava de sorrir, mesmo em silencio e isso a assustava um pouco. Ele perguntou se ela queria beber algo enquanto se levantava para ir na lanchonete do cinema. Ela se levantou e falou que pegaria ela mesma.

Gabriel concordou com a cabeça e se sentou. Apoiou-se na cadeira e voltou ao livro, onde rapidamente ficou compelido até Clara voltar. Quando ela chegou, ele ainda ficou um tempo lendo, possivelmente terminando uma poesia, fechou o livro e olhou para ela.

- Você ainda vai querer ver o filme? – Perguntou ele sorridente.

- Claro, eu não vim para isso? – Respondeu Clara um pouco irritada.

- Ué, você pode mudar de idéia.

Clara ficou um tempo em silêncio. Gabriel continuou:

- Que tal, agente bebe esse café e se minha companhia estiver te incomodando desistimos do filme, ai você pode ir sem mim ou não ir. Sei lá. Topa?

- Sua presença não está me incomodando.

Clara deu um gole no café, ela sentiu o calor e quase queimou a própria língua. Uma lágrima escorreu do olho e Gabriel deu uma leve risada. Normalmente isso iria irritá-la, mas dessa vez não o fez. Gabriel pegou uma caneta e começou a escrever algo e um guardanapo.

- Olha, eu não vou querer ver o filme não ta ok? Agora, agente pode conversar um pouco – Disse Clara.

Gabriel continuou sorrindo e concordou com a cabeça. Continuou escrevendo no guardanapo. Clara não entendeu a reação dele. Ela continuou falando:

- Você é um cara… Diferente… Parece ser uma pessoa muito legal.

Gabriel olhou fixamente para ela agora. Parecia ter terminando de escrever. Clara continuou:

- Eu vi que você é budista e tem umas fotos muito bonitas em umas florestas.

Gabriel começou a dobrar o guardanapo. Clara parou, olhou, quando ele terminou, ela voltou a falar:

- Eu vou embora tá. Desculpa.

Gabriel se levantou, pegou a mão dela, deixou o guardanapo na mão dela. Fechou. Deu dois beijos no rosto dela e falou sorridente:

- Até mais.

- Até mais – respondeu Clara com a mão ainda fechada.

Clara seguiu até a porta do cinema quando ouviu Gabriel um pouco distante dela perguntar:

- Já que você não vai no cinema, se importa se eu for só?

Ela olhou para traz e deu um leve riso sem compreender a pergunta. Falou para ele:

- Claro que não. Depois me diz se é bom.

Ao sair do cinema ela abriu o papel, tinha escrito um pequeno poema. Um Hai Kai.

 

“Não somente eu

Vento conforme o tempo

Uma luz no breu”

Ta Tudo Mudando

Eu me importava, mas ta tudo mudando. Saltei do Ônibus sem pensar muito e quando toquei o chão bateu no meu rosto um vento com um sabor diferente, a luz não cegava tanto e minha boca estava seca, mas não seca sem água, seca porque ali era tudo diferente. Fiquei parado e percebi que eu não tinha para onde ir. Minhas pernas estavam bambas e minha barriga parecia que ia explodir. Tava um frio desgracento, mas não era do clima não, foi o cutucar do motorista que me arrepiou todo. Eu olhei de lado, ele olhou para baixo, um homem bom, humilde, nem dirigiu a palavra a mim, mesmo eu sendo um ferrapado, era de dar dó. Ali do meu lado, minha maleta com umas mudas de roupas, algum dinheiro escondido, meus quadros embrulhados em um pedaço de papel e corda e uma sacola com umas comidinhas boas da minha mãe. Fazia anos que eu não botava os pés em João Pessoa, da ultima vez vim visitar minha tia Lúcia e agora… Peguei minhas coisas e resolvi andar, não tinha muito dinheiro então era o jeito. Não precisei caminhar muito já vi logo a lagoa ali, dali eu me achava, era só pegar o ônibus certo para ir para casa da tia. Desde que ela morreu a casa ficou vazia, me pegou de surpresa aquela carta. Tia Lúcia sempre gostou dos meus quadros, falou que eu tinha que ir morar em João Pessoa que lá eu ia ter mais visão, nunca fui… Quando morreu deixou a casa para mim e veio com uma carta que dizia que agora era minha responsabilidade cuidar da casa e que eu não tinha mais escolha, tinha que me mudar. Casinha boa lá nos Bancários, eu achei o ônibus, falei com o motorista e entrei pela frente por causa das minhas coisas. Peguei uns trocados no bolso e paguei a passagem lá atrás. Um moço me viu cansado e ofereceu o lugar, fiquei até com vergonha de aceitar, mas eu tava mesmo, acabei aceitando, o nome dele era Rogério, um rapaz de São Paulo que veio fazer medicina aqui João Pessoa, a USP era muito difícil de entrar então ele veio estudar aqui. Prontamente me apresentei para Rogério “Sou Raimundo e ainda to descobrindo o que fazer”, expliquei para ele que minha vida foi no sítio, mas desde cedo minha tia Lúcia me ensinou a pintar e logo que aprendi a ler já tava lendo Kandkinsky, Argan… Ele não me levou muito a sério, mas tudo bem. Eu sei é que eu errei o ponto e tive que andar mais um bocado carregando aquela tralha toda. Vi lá a casa, fechada, bateu uma saudade de Tia Lúcia. Ela era na verdade irmã da minha avó, mas nunca teve filhos e acabou sendo muito presente na minha vida. As chaves abriram todas as portas e cadeados, mas eu ouvi um barulho vindo lá do fundo. Um latido! Lembrei que tia Lúcia tinha um cachorro, mas achei que alguém ia ta cuidando dele. Bixinho, esqueceram ele lá… E eu esqueci o nome dele também. Deixei minhas coisas lá dentro e fui vê-lo, ele tava abanando o rabo e pulando na grade feliz da vida quando me viu, mas tava magro e surrado. Era um vira-lata, lembrava de alguma forma um dálmata, mas tava na cara que era vira-lata… Também se não fosse não agüentava a dureza que deve ter passado. Soltei ele, já que eu não lembrava o nome fiquei chamando ele de Bixinho mesmo, e ele entendeu que eu tava falando dele. Peguei na sacola um pouco do bode que minha mãe tinha preparado e dei para ele comer, eita felicidade. Bateu a noitinha e eu sai para comprar um pãozinho e comida pro Bixinho. Voltei, liguei a luz e deixei Bixinho entrar. A TV de tia Lúcia tava lá, grande que só, quando era criança adorava ir lá e ficar vendo desenho enquanto ela e minha mãe tomavam um café na cozinha. Aquele lugar me dava uma saudade da minha infância, Bixinho parecia com saudade de tia Lúcia também. Deixei a bacia dele com comida do meu lado, sentei na frente do sofá – não em cima, na frente mesmo para ficar ao lado de Bixinho – e fiquei comendo meu sanduiche olhando para a TV sem sinal. Era hora de decidir o que fazer, vim ali para virar pintor e deixar de ser roceiro… Só que cuidar do sítio é só o que eu sabia fazer… Não sabia nem por onde começar. Passaram três dias com eu lá dentro sobrevivendo junto com Bixinho. Dei um jeito no meu cabelo, peguei minhas roupas mais novas, dei uma engomada e resolvi rodar a cidade um pouco. Deixei Bixinho lá, ele fez manha, mas sabia que eu ia voltar. Peguei o ônibus e fui até o centro, lá na Lagoa onde tinha chegado. Eu vi andando por ali Rogério com mais dois outros homens, fui até lá dar um oi. Ele riu, perguntou o que eu tava fazendo e eu respondi a verdade “Não sei homem, to perdido aqui”. Ele me deu um tapinha nas costas “Você é artista né?” fiquei meio receoso em responder, na verdade, eu não respondi, sei lá se sou artista, “tem um sarau de poesia daqui a pouco que um pessoal da UFPB ta organizando, quer ir?” Achei ótimo, adorava poesia, tinha uma quedinha em especial por Fernando Pessoa, assim só pelo nome mesmo. Ele me deu o endereço e falou que ia comer com os amigos, deixei eles irem, ele não parecia me querer por ali mesmo. Fui até o shopping Tambiá, rodei… Rodei, comprei umas roupas, comi, mas nada comparável com a comida de mainha. Deu a hora, cheguei lá e é incrível que eu não me perdi. Rogério nem apareceu, devia ta ocupado, vida de estudante de medicina é assim mesmo. As pessoas se vestiam com muitas cores, achei bonito, dava um ar mais feliz, mas nem sei como mainha ia reagir se eu aparecesse me vestindo assim. Fiquei rodando, o povo bebendo cerveja, tava  calado no meu canto. Começaram a recitar, mas era poesia de gente famosa, poesia dos outros. Tinha um tal de Lucas, que todo mundo idolatrava, ele subiu, leu lá as poesias dele, e o rapaz era bom mesmo, mas era meio arrogante. Quando ele terminou ele perguntou se alguém dali queria subir e ler, eu levantei a mão e ele me chamou. Perguntaram se era poema meu ou dos outros, “é dos outros, não sei escrever, só pintar mesmo”. Depois percebi que algumas pessoas acharam que eu literalmente não sabia escrever, mas a maior parte entendeu que era só para dizer que eu não escrevia poesia. Li um poema de Manuel Bandeira que eu sabia de cor. Tava um vento batendo no meu cabelo assanhado, uma luz bonita da lua, meus pés gelados nas sandálias de couro que eu tanto gostava… Bateu uma emoção… Tia Lúcia que me apresentou Manuel Bandeira… Deu que a emoção saiu na leitura da poesia. Bateu um vento especial, o povo ficou calado. Na hora, eu nem me importei, bateu então o medo de que o povo tinha achado tão ruim que tava sem reação… Lucas botou a mão no meu ombro, pegou o microfone, no rosto dele tinha um sorriso de prazer e ai eu percebi que eu fiz direito… Ele falou “Quem quer que o Raimundo leia mais uma?” e o povo vibrou… Foi ai que eu entendi Tia Lúcia e as discussões com mainha, elas me largavam vendo desenho e ficavam horas tomando um café e eu ouvindo se eu devia ou não vir morar em João Pessoa. Lucas anotou meu telefone, falou que ia ligar no próximo recital, comentei que pintava e ele falou que queria ver meus quadros. Esse tal de Lucas tava me saindo um baita anjo da guarda, no outro dia o homem me liga e pergunta se podia passar lá em casa. Me apareceu com um engradado de cervejas e pediu para ver os quadros. Eu não bebia, mas o diabo deu conta do engradado inteiro sozinho. Ficou um tempo bacana olhando os quadros e conversando com Bixinho, já que eu nunca respondia, ele achou melhor falar com o cachorro que pelo menos latia ou lambia de volta. Ele me falou, já muito bêbado, que ia dar um jeito de expor meus quadros, que eu merecia. Não ouvi noticia de Lucas por duas semanas quando ele me ligou do celular, e para variar, perguntando se podia aparecer. Lá veio ele com mais um engradado de cerveja, Bixinho foi lambê-lo, Bixinho e Lucas tavam muito mais amigos que eu e qualquer um dos dois. Lucas falou que dessa vez eu tinha que beber pelo menos uma latinha… “Conhece o casarão 34? Vou dar um jeito, se os homens gostarem de pelo menos um quadro seu vão botar lá numa mostra de artistas contemporâneos Paraibanos. E eu te garanto que depois de ver eles vão querer a mostra inteira só com seus quadros!” e depois dessa eu bebi… Só uma latinha, mas ele conseguiu! Alguém vai pelo menos ver meus quadros. Bateu a noite, me sentei com Bixinho, peguei meu sonzinho e deixei Zé Ramalho tocando… Eles vão ver meus quadros amanhã. Tá tudo mudando.

Os batidas

Eu estava saindo da estação do metro, o frio apertou um bocado, então coloquei minha camisa de flanela e ascendi um cigarro. O bar não era muito longe dali, isso eu sabia, mas fazia pelo menos dois anos que eu não andava por essa cidade. Foi o tempo de três cigarros até eu avistar um boteco de azulejos na parede com um senhor barrigudo servindo cerveja para meus três bêbados favoritos. Fui ao balcão antes de falar com qualquer um dali, peguei um copo e mais uma garrafa. Os três se viraram pra mim e começaram a rir, “ta barrigudo em Belmonte” falou Nogueira, e eu tava mesmo, foram seis meses alimentado a pizzas de rua, hambúrgueres e cachorros quentes, voltar de Nova Iorque tem esse efeito nas pessoas. Ali sentado estavam Nogueira, babaca que roubou minha mulher e me fez ir para Nova Iorque, nunca quis casar e do nada me mandou que tava apaixonado e era por minha mina, deu dois meses, papeis assinados nos separamos e no processo eles arrumaram o casamento para uma semana depois do processo ter terminado… Babaca…  Gustavo, sentado com um guardanapo escrevendo algo nele, o cara se diz poeta, mas ele é rico mesmo, o pai é prático e ele foi fazer faculdade de filosofia na França… Babaca riquinho. E o terceiro era o Rubens, o verdadeiro jovem empreendedor, começou como assíduo fumante de maconha, mas logo passou a fazer missão e cobrar um extra, se formou em engenharia e agora abriu a própria fabrica de seda… E ainda falam que maconha não leva ninguém a lugar algum. Sentei, enchi o copo da galera, cinco cascos depois o papo ainda era a intervenção na Líbia e a conseqüência disso no teatro Off Broadway. Inutilidades, meu maço de cigarros tava acabando, faltavam mais três cigarros, um para fumar agora, um para fumar enquanto comprava outro maço e outro para fumar enquanto voltava… É, tá de boa… Terminou o primeiro cigarro sai para ir ao posto comprar um maço novo, como eu havia planejado. Deu tudo certo, o ultimo cigarro acabou exatamente quando cheguei na mesa. Na volta percebi que o papo estava mais sério, sentei e prestei atenção. Eles estavam falando da Júlia, minha ex e aparentemente atual ex do Nogueira, achei que ia rir nesse momento, mas não foi o caso. O cara tava arrasado… Abri meu maço novo de cigarros e resolvi abstrair a conversa. Depois de tudo que aconteceu em Nova Iorque é melhor eu evitar mais estresse. Olhava para frente nadando em meus pensamentos. Gustavo rindo olhou para mim e falou com todo seu lirismo “Que foi viado?” e eu respondi “Preciso viajar”. E precisava mesmo, aquilo tudo era muito louco para mim… Ter um emprego, ter uma casa, não ter mais minha mãe. “Vou me mandar para longe rapaz, Ana me mandou um e-mail falando que vem passar uns dias lá em casa, vou esperar, pega-la e levá-la para longe daqui” estava eu mais uma vez falando comigo mesmo em voz alta sem me importa nem um pouco com as respostas, mas no meio de todas as piadas sobre eu pegar minha irmã, veio algo interessante… “To contigo, agente pega o carro e se manda, quero tirar a cabeça da cidade também” e era o  Rubens me apoiando. Aparentemente ele finalmente conseguiu algum tipo de férias e vai poder relaxar por uns tempos, vai ser uma boa ter o Rubens ali, o moleque é tranqüilo. Foram mais cinco cascos ainda falando sobre minha irmã, mas agora só ela, aparentemente todo mundo que eu conheço quer come-la… Inclusive meu pai… Puta merda… Meu celular tocou e era logo ela. Ligou para falar que chegava amanhã de manhã, eu falei que deixaria a chave na portaria, não acordo antes de uma da tarde por nada nessa vida. Mais uns cascos de cerveja e resolvemos voltar para casa… Dessa parte não lembro direito, lembro que o sol nascia e que topei com minha irmã na portaria… É… Foram vários cascos de cerveja… Olhei para ela, com aquele casaquinho de couro apertando os peitos e uma camisa branca deixando o decote aparecer, a calça jeans apertadinha e uma bota cano alto torneando a perna… É… Agora eu também queria comer minha irmã… Puta Merda… Mas me controlo, até porque a filha da puta é difícil e nunca ia dar pra mim. Subimos, vomitei um pouco, ela fez café. Trocamos uma idéia… Ela também não tava lidando bem com a idéia de uma mãe morta, eu não contei para ela a parte mais louca… “Foi suicídio” ela ficou pasma… E eu precisei vomitar de novo.  Ao acordar, com meu chefe me ligando perguntando porque eu não dou as caras faz dois dias eu fiz o que devia ter feito há muito tempo… Eu mandeiele tomar no cu. Minha irmã riu, que bom… Falei para ela dos planos, a idéia… Pegar um carro e subir… Subir até o sudeste pelo menos, queria chegar ao Rio de Janeiro. Lá é quente, tem mulher gostosa… É o que dizem… Pelo menos assim eu tiro a minha mãe com os miolos explodidos e minha irmã de perna aberta da minha cabeça. Uma porra de passarinho cantava lá fora e a ressaca tava braba… Uns vômitos depois Rubens me liga, mandei ele arrumar uma mala e pegar o carro, agente tava partindo. É rapaz… Assim eu peguei a estrada… E tinha como ser diferente?

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Um show em 64

Gustavo movia seus dedos com velocidade e precisão, as notas fluíam se misturando e formando um som louco, aleatório, o rasgado do overdrive ecoava pela cabeça das ultimas vinte pessoas lúcidas naquele lamaçal.

Bruno, no meio da lama, ouvia o solo… Ele deu um gole na sua garrafa de 51 e foi à lama. Tudo o que pensava era que sua Lady havia lhe deixado. Tudo que ele via era a Lady Lady ali na sua frente montando um cavalo voador, nua e com seus seios balançando no ar.

A gloriosa lama que voou por ai se chocou com as ondas da guitarra de Gustavo, aquele som formou a nota exata que acordaria o Elfo Flautista… Lady em seu cavalo voador desceu ao palco e Gustavo parou apreciando a imagem.

No escuro da floresta veio ecoando um som de flauta. As plantas cresciam e o ar acelerava. David, na bateria, largou os pratos e soltou a mão no bumbo e nos tons.

Tum dum dum dum

Tum dum dam dum dim dum

Tum T’dam T’dum dim dam

O silencio

Do meio da floresta o som da flauta ficava mais alto. Junto um apito de locomotiva que andava por entre as estações da vida. Crianças pulavam para fora e velhos entravam – uns com calma e outros desesperados. Um homem baleado sangrou vagão adentro.

Mas o desespero de todos sumia ao ouvir o som que saia de cima da locomotiva. Um elfo, que vestia calças de couro e tinha longos cabelos castanhos esvoaçando no ar, tocava uma flauta Piccolo que carregava a locomotiva sem desacelerar.

No palco David continuava e Bruno acordou, ele olhou para trás e a locomotiva vinha em sua direção. As notas da flauta estavam mais rápidas e mais assustadoras, os olhos do elfo paralisaram bruno, que esperou o seu momento de entrar na locomotiva.

PAM!

Por seus cabelos Bruno foi agarrado e carregado às alturas. Lady o segurava, seus dentes trincavam enquanto ela fugia das garras do Flautista.

As notas da flauta fluíam mais rápidas e mais firmes, seu som paralisava tudo em sua volta que não podia mais andar. Os últimos dezenove fãs sóbrios tentaram correr, uns foram pegos pela locomotiva e outros conseguiram se esconder… Mas a locomotiva não desacelerava.

Lady segurou o braço de Bruno e o botou na parte de trás do cavalo voador, enquanto isso porcos surgiram do ar e se  puseram a perseguir Lady e Bruno.

Quando um dos porcos havia conseguido morder a perna de Bruno um som surgiu no meio do ar bloqueando as notas do Flautista. David junto com Joana tocavam em um ritmo de vida. Joana, com os graves do baixo, fazia a terra tremer e David trazia o fogo da alma no ar.

Um Dragão de rosas surgiu do solo e voando junto com Lady espantou os porcos. O Elfo Flautista fechou olhos em fúria. O som da flauta agora mais parecia o de uma lira e o Dragão se dissipou, mas ele perdeu o apoio de David que recobrou a consciência com o poder dos companheiros de banda.

PLAM!

Explodiu o prato junto com uma bomba atômica no céu.

A locomitiva se virou ao palco.

Silencio

Os três tremiam de medo ao ver aquela imagem tão imponente. Os ventos sopravam contra eles, mas a terra e o fogo tremiam em seu lado.

O som do flautista foi mais forte e silenciou todos os três, a locomotiva se aproximava do palco quando…

Outro som de guitarra soou pelo ar, raios de luzes passaram e na frente do palco se materializou Sergio Dias. Sua guitarra psicodélica confundiu o Flautista e ao berrar “SARAVÁ!” o Flautista desistiu e com sua locomotiva voltou para a floresta.

Os dedos de Sergio Dias dançavam pelo braço de sua guitarra de paz e o som trouxe todos os que estavam em outros estados de consciência de volta à realidade. Lady beijou Bruno e Sergio se virou desaparecendo entre rosas e luzes. O show foi salvo.

Isso aconteceu em 1964 e foi assim que eu fui salvo por Sérgio Dias.

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