Clara sentou-se em seu sofá branco de couro, apoiou o cartaz escrito “Abaixo o Reuni” ao lado, respirou fundo, suspirou lentamente enquanto fechava os olhos. Ela havia acabado de voltar de uma tomada de reitoria no Fundão, estava exausta, seu conhecimento sobre a questão era pouco, mas o bastante para ter certeza que era contraria a tudo aquilo.
O corpo jogado no sofá foi escorregando e se apoiando em uma posição quase horizontal com as pernas jogadas sob o chão. O sol entrava pela cortina no canto do apartamento e o som dos carros passando pela Vieira Souto entrava apartamento adentro.
Maria, uma velha senhora gorda, negra e com um olhar extremamente maternal entrou no ambiente enquanto enxugava um copo. Enquanto movia sua cabeça para verificar se Clara dormia ela falou:
- Oh Clara… Ta acordada?
E clara levemente abriu seus olhos, dos seus lábios saiu um breve sorriso.
- Maria…
E Maria deu um grande sorriso enquanto ajeitava sua postura. Ela foi para mais perto de Clara e dessa vez falou em um tom mais claro:
- Mulher, sua mãe ta te procurando. Você tava onde?
- Agente ocupou a reitoria Maria – falou Clara se ajeitando no sofá.
- Explica isso para ela depois. Você vai querer comer alguma coisa?
- Tem ainda aquela quiche de palmito?
- Tem não, mas eu faço.
- Não precisa o incomodo Maria. Fica tranqüila. O que têm?
- Olha, tem um frango que sua mãe pediu e ela falou para você comer.
Clara olhou para o lado e deu uma rápida esbaforida.
- Mas eu comi o frango. Posso fazer uma berinjela a milanesa como você gosta e ai você come com arroz e legumes.
Clara abriu um sorriso, se levantou e abraçou Maria, que abraçou de volta e falou mais baixo:
- Ó minha filha, tenta não brigar tanto com sua mãe, ela quer seu bem, mas não te entende. Agente vai fazendo assim e finge para ela que ta tudo certo.
Clara abraçou Maria um pouco mais forte e falou:
- Maria eu te amo – e deu em seguida um beijo na bochecha de Maria e a largou.
- Aquela menina te ligou também filha – falou Maria voltando a enxugar o copo, que já estava bastante seco.
- Aquela menina é Amanda? Que por acaso é minha namorada?
- É a Amanda sim.
- Vou para o quarto falar com ela Maria. Quando tiver pronto me avisa.
Clara então entrou por um corredor que passava por diversas portas até que bem para o final ela entrou em uma a esquerda que dava em seu quarto. Ele deveria ter uns vinte metros quadrados, tinha uma cama de solteiro, um sofá, um birô com seu Mac, uma poltrona egg vermelha, uma estante com alguns livros e vários bichinhos de pelúcia.
Clara pegou o telefone e discou. Após um tempo Amanda atendeu do outro lado e Clara falou:
- E ai mulher… É, eu tava na ocupação, eu te falei poxa… Sei… Entendo… Olha nem quero ir pra Fosfo hoje não… Tá certo. Agente vai sexta, hoje eu vou dormir com você e agente fica só no boteco 3.
Clara passou o resto do dia entre ler seu livro de artigos de jornais de Truffaut e assistir Two and a Half Mam que ela baixou da internet em seu monitor de 26 polegadas da Apple. Parou somente para comer o seu jantar atrasado, se arrumou e foi para um bar onde estavam os amigos.
No bar em botafogo estavam sentados: Guilherme, um rapaz magrela de cabelos negros, lisos e longos, com barba por fazer e uma camisa do Sonata Artica; Gabriela, uma garota que estava envolvida pelos braços de Guilherme, vestia uma bota de cano alto, um vestidinho curto, um casaco jeans que combinava com seu curto cabelo azul; Johanna, uma mulher gorda, loira, com muita maquiagem, espartilho, shortinho e uma meia arrastão; e Amanda, uma baixinha de cabelos curtos castanhos, barrigudinha, com uma camisa do Pixies, uma calça jeans e all-star.
Clara sentou ao lado de Amanda, as duas se beijaram. Durante a madrugada a mesa fumou dois maços de cigarros e bebeu vinte e dois cascos de cerveja. Cambaleando, enquanto o sol nascia, as duas pegaram um taxi e foram para a casa de Amanda no Catete.
Amanda morava em um quarto e sala equipado com uma televisão, um colchão no chão, livros, uma geladeira com muita cerveja e um banheiro. As duas ficaram nuas e transaram loucamente naquela noite.
Clara abriu os olhos doloridos, pegou seu celular com quatorze ligações não atendidas de sua mãe e uma mensagem escrita “Você não precisa voltar para casa. Está me saindo uma bela de uma vagabunda.” Ela não se importou. Ela se levantou enquanto Amanda saia do banho. Clara começou a se vestir quando Amanda ainda nua falou:
- Você ta diferente. Não quis ir para fosfo ontem, não quis puxar um com agente mais cedo.
- To cansada.
- Ta cansada do que?
- To cansada porra.
- Você tem mó vida boa, para de merda.
- Caralho. Eu to cansada!
Clara já estava ficando alterada e foi até a janela acender um cigarro. Amanda, agora vestindo somente sua calcinha foi atrás de Clara e a abraçou pela cintura. Clara tirou a mão de Amanda da cintura e virou o rosto falando:
- Vai se fuder.
Amanda voltou a se vestir. Clara suspirou, apagou o cigarro, se virou enquanto se apoiava na janela e falou:
- Eu quero acabar. Não ta funcionando.
Lágrimas começaram a escorrer no rosto de Amanda que se sentou na cama. Clara calmamente juntou as coisas dela e andou até a porta. Enquanto ela abria a porta Amanda atirou uma bolsa nas costas dela. Clara pegou a bolsa e colocou ao lado da porta, olhou um pouco Amanda chorar, abriu a porta, deixou a cópia da chave dela em cima da bolsa, falou “Tchau” e fechou a porta.
Nos quatro dias subseqüentes Amanda deixou de ir à faculdade. Ela trancou as três matérias que fazia junto com Clara. As pessoas por um tempo começaram a falar um pouco torto com Clara.
Os dias se arrastavam. Clara ia para a faculdade e da faculdade para casa onde ficava trancada em seu quarto lendo e assistindo a filmes. Sua mãe, como sempre, mal a via, somente no fim da noite quando chegava de suas longas jornadas de trabalho. Nessas poucas noites a mãe de Clara a convenceu a freqüentar um psiquiatra e a ir dormir mais cedo.
Na faculdade ela se manteve falando mais com Guilherme e Gabriela, que agora estavam namorando. Eles a chamaram para uma festa, ela hesitou no começo, mas acabou topando.
Chegou em casa, tomou seus remédios e por isso não poderia beber. Sentou, leu um pouco de Goethe e tirou um cochilo, foi acordada por Gabriela ligando. Clara atendeu ao telefone e somente concordou com monossílabos.
Arrumou-se e saiu enquanto sua mãe chegava. Ela a olhou torto, mas como era sexta feira não reclamou. Clara pegou um taxi e se encontrou com os dois na porta do Espaço Acústica. Era a formatura do curso de Design da PUC-RIO e os dois estavam falando com mais uma garota, a Júlia, uma loira baixinha que estava se formando em Design. Apresentaram as duas e enquanto os três conversavam animadamente, Clara ficou calada.
Entraram na festa, Clara dançou um pouco, mas logo subiu para sentar nos sofás. As horas passaram lentamente, ela queria ir embora. Clara olhava para o chão sem sentir um mínimo de animação pela vida. Ela percebeu Júlia vindo, junto com um homem, na direção dela e logo se irritou. Gabriel, um garoto magro, alto, vestindo uma calça xadrez folgada, uma bata e all-star chegou ao lado de Júlia.
Ele olhava para os cantos enquanto Júlia apresentava os dois. Ele sentou ao lado esquerdo de Clara e Júlia no direito. Ele perguntou para Clara:
- Então você é a Clara.
Ela olhou meio de lado para ele e ele abriu um grande sorriso. Clara sorriu de volta sem vontade e respondeu:
- Isso.
- Gabriel, é um prazer.
- Prazer.
Ele ficou ao lado dela sorrindo e conversando sobre relacionamentos, no meio da conversa Júlia saiu. Clara falava muito pouco, fazendo com que Gabriel falasse muito mais. Quando ele se aproximou dela e colocou sua mão em seu ombro ela tirou. Ele sorriu, se levantou, perguntou se ela não gostaria de dançar e ela respondeu que não. Clara terminou indo embora logo depois disso e Gabriel continuou na festa.
Clara foi para casa, dormiu, acordou cedo no sábado de manhã e resolveu ir caminhar no calçadão. Ela se cansou logo, se irritou com o sol, foi para uma barraca e comprou uma coca-cola. De repente alguém a cutucou nas costas, ela olhou para trás e era Gabriel segurando uma maquina fotográfica enorme com uma grande lente e um grande sorriso no rosto.
- Caminhando de manhã na praia?
- É…
- Sempre bom não é?
- Não.
- Hum… Eu gosto.
Clara, incomodada, se sentou na cadeira e Gabriel foi até a barraca comprar uma água de coco e sentou-se ao lado dela. Ela percebeu na mão dele um terço oriental de madeira e ficou olhando. Gabriel falou:
- É para proteção. Devia ter usado ontem, mas não achei por nada.
- Sei.
- Você saiu cedo ontem não foi?
- Humhum. Não estava gostando da festa.
- Pois é… Eu não tenho mais paciência para essas festas também.
- É… Eu também não estava podendo beber.
- Eu não bebo também. Você tá tomando remédio?
- Calmante e anti-depressivo.
O sorriso de Gabriel diminuiu um pouco. Ele deu um longo gole na água de coco. Clara falou:
- Você não gosta né?
- Não… Nada contra para quem precisa. É só que às vezes acho que prescrevem esses remédios facilmente demais.
- Entendo.
- O que você vai fazer hoje de noite?
- Nada… Não sei.
- Que tal pegar um cinema?
- A é? Não sei.
- Ah. Vamos!
- Ta… Vou ver…
- Me dá seu celular.
- Tá.
Clara passou o número do celular para Gabriel. Voltou para casa logo depois, entrou no facebook e adicionou-o. Viu que ele era budista, meditava, usava roupas estranhas e estudava filosofia na UFRJ. Deitou-se e foi dormir.
Algumas gotas de chuva batiam na janela. Clara abriu os olhos e sentiu um calafrio em seu corpo. Ela foi até o armário, pegou uma camisa de manga longa e vestiu. Saiu e foi até a sala onde viu sua mãe sentada tomando uma grande caneca e café.
Clara gritou:
- Maria! Faz um ovo mexido para mim.
Entretanto, em resposta veio somente a voz da sua mãe:
- Maria não está – ríspida como sempre.
- Ela tá doente?
- Não sei.
- Ela não tá por quê?
- Ela foi demitida.
Clara parou, a mulher que cuidou dela desde que ela nasceu, a ouvia reclamar, chorar, entendeu suas escolhas, aceitou ela ser lésbica, aprendeu pratos vegetarianos quando ela cortou carne… Tinha sido demitida.
Clara andou um pouco, tinha alguma vontade de chorar. Respirou fundo e falou com calma:
- Por quê? O que houve?
- Ela estava roubando e não limpava em cima das estantes.
- Roubando?
Clara não acreditava que Maria estava roubando, ela sempre foi uma mulher muito honesta. Sua mãe continuou:
- Sim. Ela ficava com o troco das compras e pegava parte dos produtos para ela.
Clara ficou em silencio. Foi até a cozinha, pegou uma capsula de café e preparou um expresso muito forte. Pegou sua xícara e foi para o quarto, sentou, respirou. Clara bebeu o café sem sentir nada no peito. Seu corpo, agora, era frígido.
O dia passou, ela resolveu não ir para a faculdade. Ficou em casa, trancada. No computador brotou uma mensagem de Gabriel convidando-a para ver um filme e tomar um café. Ela perguntou se poderia ser “hoje de noite” e ele disse que sim. Combinaram então de se encontrar mais tarde.
Deu à hora, ela se vestiu e foi ao encontro de Gabriel. Ela não estava com humor para heterossexuais chegando nela, mas resolveu respirar fundo. Ao chegar viu Gabriel sentado em uma mesa, bebendo um expresso e lendo Belvedere. Aproximou-se, deu um tapinha no ombro dele, ele se levantou e a cumprimentou com dois beijos.
Clara pediu para ver o livro, ele entrou. Era do Chacal, livro de poesias. Ela fechou logo, estava enjoada de poesias. Estava enjoada da vida na verdade, não queria estar ali, só queria voltar para casa.
Gabriel não parava de sorrir, mesmo em silencio e isso a assustava um pouco. Ele perguntou se ela queria beber algo enquanto se levantava para ir na lanchonete do cinema. Ela se levantou e falou que pegaria ela mesma.
Gabriel concordou com a cabeça e se sentou. Apoiou-se na cadeira e voltou ao livro, onde rapidamente ficou compelido até Clara voltar. Quando ela chegou, ele ainda ficou um tempo lendo, possivelmente terminando uma poesia, fechou o livro e olhou para ela.
- Você ainda vai querer ver o filme? – Perguntou ele sorridente.
- Claro, eu não vim para isso? – Respondeu Clara um pouco irritada.
- Ué, você pode mudar de idéia.
Clara ficou um tempo em silêncio. Gabriel continuou:
- Que tal, agente bebe esse café e se minha companhia estiver te incomodando desistimos do filme, ai você pode ir sem mim ou não ir. Sei lá. Topa?
- Sua presença não está me incomodando.
Clara deu um gole no café, ela sentiu o calor e quase queimou a própria língua. Uma lágrima escorreu do olho e Gabriel deu uma leve risada. Normalmente isso iria irritá-la, mas dessa vez não o fez. Gabriel pegou uma caneta e começou a escrever algo e um guardanapo.
- Olha, eu não vou querer ver o filme não ta ok? Agora, agente pode conversar um pouco – Disse Clara.
Gabriel continuou sorrindo e concordou com a cabeça. Continuou escrevendo no guardanapo. Clara não entendeu a reação dele. Ela continuou falando:
- Você é um cara… Diferente… Parece ser uma pessoa muito legal.
Gabriel olhou fixamente para ela agora. Parecia ter terminando de escrever. Clara continuou:
- Eu vi que você é budista e tem umas fotos muito bonitas em umas florestas.
Gabriel começou a dobrar o guardanapo. Clara parou, olhou, quando ele terminou, ela voltou a falar:
- Eu vou embora tá. Desculpa.
Gabriel se levantou, pegou a mão dela, deixou o guardanapo na mão dela. Fechou. Deu dois beijos no rosto dela e falou sorridente:
- Até mais.
- Até mais – respondeu Clara com a mão ainda fechada.
Clara seguiu até a porta do cinema quando ouviu Gabriel um pouco distante dela perguntar:
- Já que você não vai no cinema, se importa se eu for só?
Ela olhou para traz e deu um leve riso sem compreender a pergunta. Falou para ele:
- Claro que não. Depois me diz se é bom.
Ao sair do cinema ela abriu o papel, tinha escrito um pequeno poema. Um Hai Kai.
“Não somente eu
Vento conforme o tempo
Uma luz no breu”